Como minha avó materna Anália costuma falar: “Para morrer, basta estar vivo”. A sabedoria popular não mente nem intimida ninguém. A frase até parece ser boba, ingênua, óbvia, mas poucos pararam para pensar no poder dela. Vou contar duas histórias recentes. A primeira é a do Tião e a outra do Alan.
Todos os dias cedo passo em frente a mesma banca de jornal após a atravessar um túnel que liga a Rua Sete de Setembro, parte da Vila Santana, ao Centro de Valinhos. Por volta das 7h da manhã, Tião está abrindo sua banca, que leva o nome dele. Paro, falo um “bom dia”, olho as principais manchetes dos jornais, compro algum em algum dia importante ou que me chame atenção, as vezes faço uma recarga no celular, já vai chegando um ou outro, puxa aquele papo gostoso, quente, matinal, como os periódicos. Sempre as mesmas pessoas nos mesmos horários. E todas, diga-se, as três ou quatro delas nunca combinaram, deve ser o inconsciente trabalhando freneticamente. Depois da rápida prosa, trabalho. O Tião abre o sorriso e fala: “Bom dia, tudo de bom”. Na volta, à tarde, a mesma cena, só trocando pelo “oh, garoto”.
Esta rotina se estendeu por uns cinco anos, contando os dois anos trabalhando e três estudando de manhã. Até que em uma manhã de segunda-feira não vejo o Tião. Está um filho dele. Confesso que passo despercebido, não pergunto nada, achando que o veria no decorrer do dia. Engano meu. Passam-se dois, três dias e nada do Tião aparecer. O revezamento ao abrir a banca são dos filhos, um jovem casal, e o Tião já beirava seus sessenta e poucos anos (sempre desconfiei do conteúdo que ele guardava abaixo de sua mesa, mas, enfim). Resolvo perguntar: “Cadê o Tião”? O filho me responde com a voz meio encharcada: “O coração do Tião está um pouco fraco”. Tomo um susto ao ouvir aquilo. Os cinco curtos anos de convívio com aquele senhor da banca passam como um flash. Na terça-feira, 20, a banca está fechada. Pessoas param para olhar o papel na porta de aço. Imagino o pior e é aquilo mesmo: Tião foi vender seus jornais no céu.
Todos os dias continuo passando em frente àquela banca em que comprei tantas revistas de futebol e política, jornais, coleções, recargas de celular e ainda visualizo o Tião dentro dela com seu caminhar vagaroso, saindo dela e indo até o carro com uma caixa cheia de seus produtos, colocando-a no chão, abrindo o porta-malas e levando-as para dentro. Nunca imaginava que o coração do Tião sofria de arritmia.
Quando pareço que estou me recuperando de uma perda, vem outra. Nove anos de convívio. Ao menos duas vezes por mês nos víamos, na média duzentos e quarenta tratos nos “brancos loiros” (que de loiros não tem nada, mas de brancos muito), como diria o Alan, cabeleireiro. Certo dia de fevereiro vou cortar o cabelo e ele não está. Sou informado de que ele tivera operado e estava internado. Talvez fosse algo simples, logo estaria novamente com sua tesoura nas mãos, bem à moda antiga. Fui ao concorrente.
Retorno em março, nada. Estava internado na UTI com um problema no pulmão, se os vários dizeres da boca do povo não se contradizerem, infecção. Diariamente, no mesmo horário em que passo na banca do sempre Tião, dou um pulo no salão para saber como o Alan estava, se havia apresentado melhora. Nas poucas vezes em que encontrei sua esposa, as frases otimistas divergiam com seu olhar de preocupação e tristeza com a voz trêmula e rápida. Alan não estava bem, essa era a tradução.
Sexta-feira, 20 de abril, retorno para saber de informações. “Está um pouco melhor”, diz Tonha, sua fiel escudeira no salão de beleza. Saí martelando coisas na cabeça. “Ela falou com um tom de voz muito ‘agressivo’”, “Desviou rápido de assunto”, “Alan não está bem”. Meu cabeleireiro morreria no final de semana. Minutos depois das sete da manhã de uma segunda-feira, 23, está o papel de luto na porta do estabelecimento.
A estranheza de entrar no local e não vê-lo sentado sem sapatos vendo televisão ou cortando o cabelo de alguém na primeira repartição, logo na entrada do salão, vai bater em breve, quando retornar do concorrente. Nossas conversas sobre o nordeste, a última nossa, pois tinha acabado de voltar de viagem de Pernambuco em janeiro, e o até logo com o “foi um prazer revê-lo, saúde” ficarão guardadas naquele espaço.
Tião, espero que tenha levado algum jornal ou revista de futebol para o andar de cima para quando eu chegar. Alan, esteja com suas tesouras e o pente ou a máquina 2 consigo. Até breve.
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